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Opinião


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Matumona Mambo
Holden Roberto esperou sentado
Em duas ocasiões pude estar próximo de Holden Roberto.
A primeira vez foi em 1991, quando chegou do exílio. Muitos dirigiram-se para o aeroporto em Luanda com o objectivo de vê-lo em pessoa, e tal como fiz aquando da chegada de JM Savimbi à Luanda, queria ver aquela figura mítica da independência do meu país. Lembro-me que havia gente a espera.

Não sei se eram todos da FNLA, ou curiosos como eu,, mas via-se que havia uma grande euforia. Afinal quase todos nós começávamos a acreditar que havia chegado a hora de Angola, e que um futuro risonho se aproximava, depois dos acordos de paz. Bicesse trará muita alegria no princípio, e a esperança que jorrava na altura era tanta que em momento algum imaginávamos que os ventos de renovação que sopravam, encaminhariam para horizontes incertos.

Para quem poderia votar, havia motivos mais do que suficientes para começar a sondar em quem votar e H. Roberto poderia ser uma opção, porque não? Afinal ele havia lutado pela independência contra os colonizadores e pela fama e carisma que conquistara, figurava na lista dos candidatos sérios para o “trumunu” político que se avizinhava.

Ví-o à distância, a multidão não permitiu que o visse de perto tal como ansiava, mas regressei a casa com uma camisola em que estava estampada o seu rosto. Não me lembro bem da mensagem que a camisola trazia consigo, mas estou certo que era uma mensagem de esperança.

Guardei esta camisola em casa, visto que não gosto de publicitar caras nas roupas que uso. Fiz o mesmo com as camisolas de JM Savimbi, JE Santos e Daniel Chipenda com muito orgulho, e assim pela primeira vez colecçionei alguns produtos políticos.

Mas em em Outubro de 1992 tive de queima-los para não ser morto por porte de material partidário, como aconteceu com alguns vizinhos meus!

É que na altura dos confrontos, era muito arriscado ser apanhado com camisolas em que estivessem estampadas as faces de personalidades como Holden e Savimbi, pois poderia significar a sentenças de morte.

Falando de Holden, diria que ele veio forte, vaidoso e confiante. Podia se notar isso, nas suas intervenções e na sua personalidade. Lembro-me que foi através dele que se propôs uma conferência nacional inter-partidária, onde vários assuntos de interesse nacional seriam debatidos e também onde muitos diferendos, tal como ele pensava, seriam ultrapassados.

Lembro-me também que ele havia proposto, um governo provisório (transição) de unidade nacional, afim de organizar e supervisionar as eleições, impedindo que o governo na altura desempenhasse o duplo papel de jogador e árbitro ao mesmo tempo.

Apercebi-me há dias, através do Club-k, que foi o ele, no quadro do combate pela Paz e Reconciliação Nacional, o responsável por uma carta endereçada desde Paris, em 4 de Dezembro de 1987, ao Presidente José Eduardo dos Santos e ao Jonas Malheiro Savimbi, que viria a servir de base para a elaboração do primeiro Plano de Paz para Angola, que culminou com os acordos de Bicesse.

Porém, por tudo quanto sei, tanto a primeira como a segunda propostas foram categoricamente rejeitadas por aqueles que acharam que o facto de fazer parte do tal governo, comprometeria as suas imaculadas candidaturas.

E o resultado foi então aquele descalabro que todos nós vivemos – a bipolarização da política angolana com consequências nefastas. Afinal o Velho tinha razão ou não? Deixo que a história o julgue. Pelo que eu saiba, os mais velhos dizem: ‘mbuta mutu kabwangaka ko; sielumuka kasielumakanga’, o que traduzindo seria: ‘os mais velhos sempre tiveram razão.’

Holden como líder, pôs-independência, foi infeliz, devido a forma como dirigiu o seu partido e a incapacidade que demonstrou em congregar as várias sensibilidades e criar o espaço de convivência na diferença. Não sei se diria que foi catastrófico, mas politicamente falando, ele teve a sua sombra do passado ofuscando a sua existência. Jamais recuperou o brilho do carisma que possuia no passado.

Oxalá, o partido se reconcilie e continue o projecto por ele traçado. Vou crer que todos aqueles que viam nele como um obstáculo ou alibi para o reencontro dos irmãos longamente desavindos, respondam SIM ao seu último apelo da coesão e união.

Mas ninguém pode negar que foi dos maiores nacionalistas que Africa já teve. Ninguém pode negar o seu amor por Angola e a sua ânsia de ver este país bem encaminhado e próspero. Eu tinha alguma admiração por ele, porque mesmo passando por dificuldades, ainda acreditava que podia mudar Angola para o qual havia lutado. Não acho que era somente mera ambição pessoal, pois conheço poucas pessoas que trilharam mais de cinco décadas a busca da ambição pessoal.

O amor pela pátria, muitas vezes faz-nos rejeitar a nós mesmos. Acho também que ele acreditava que um dia seria reconhecido o contributo que deu pela independência e implantacao da democracia no país. Muito mais ainda, acredito que ele sonhava um dia com uma homenagem por tudo aquilo que fez, apesar de terem havido alguns pesares. O triste mesmo, é que ele tenha esperado sentado.

A segunda vez que o vi, não tive nenhuma multidão nem protocolo impedindo o facto, e foi entre 2000 na Igreja evangélica baptista de Maculusso. Sentei-me a uns dois metros dele e não consegui me abster em pensar na política durante quase todo o programa litúrgico.

Lembrei-me da sua chegada à Luanda, da recepção, e do lugar de destaque que lhe seria reservado pelo país que serviu. Pensei ainda nos momentos amargos que ele passou por ter apoiado Savimbi na recusa dos resultados das eleições de 1992, mas também pensei na ingratidão e insensibilidade da geração que ele estimulou a resistir contra o colonialismo português, na expropriação de terras e violações dos autóctones. Pensei que o peso do seu julgamento deveria pender mais no reconhecimento do seu papel na libertação e independência de Angola.

Fui cumprimentá-lo no fim do culto, tal como é hábito na Igreja e senti que estava perante uma pessoa diferente. Ele estava fisicamente mais frágil do que o carismático líder que eu conhecera no aeroporto 4 de Fevereiro.

Mas ficando bem perto dele, ainda sentia que estava perante um homem que Angola e África irão reconhecer um dia. Tenho a certeza que a publicação das suas Memórias será um valioso contributo para a recente história de Angola.